A espécie de que vos vou falar tem a capacidade de me irritar profundamente. Bom, também não é assim tanto, mas eu gosto de implicar.
O ser em causa, abundante no nosso país, funciona como as espécies migratórias. Só aparece de vez em quando, mas quando aparece, é tipo praga.
O emigrante.
Existem dois grandes géneros de emigrante. O que, segundo a verdadeira assepção da palavra, vai para o estrangeiro trabalhar, e sobre o qual não me vou estender (a não ser que seja uma gaja, boa, e aí não perco uma oportunidade de me estender sobre…), e o segundo género, o chamado Avec.
Ora o género do Avec divide-se em sub-géneros. O primeiro, o Avec que foi há muitos anos para França, é talvez o mais irritante. Uma das suas principais características é a de não falar português. Porque não quer. Quando vem a Portugal, mesmo já dentro do avião – que ainda por cima é da TAP – já só fala francês. Bem, francês, francês, não será, mas é algo do género. Amigo Avec, se a merda do avião é português, de uma companhia portuguesa e com tripulantes portugueses, porquê falar noutra língua? Caro Avec, deixa-me que te dê uma pequena explicação. Falar assim no avião não dá estilo. Pelo contrário. Faz com que os tripulantes se divirtam durante a viagem. É vê-los lutar uns com os outros para ir atender-vos. Porque se divertem.
Existe uma pequena variante deste tipo de Avec. O que vem de carro. Claro que raramente o carro é deles. O hábito é alugar um carro de gama alta e pavonear-se com ele pelas estradas como se fosse seu. Amigo Avec, mais uma vez te elucido. Não dá estilo. Pelo menos retira o autocolante a dizer que o carro é de aluguer. Sempre disfarça. Claro que se percebe na mesma que o carro não é teu, basta ver-te lá dentro a tentar perceber como é que funcionam a maior parte dos botões, que para ti são estranhíssimos. Tudo o que vá além do On, Off e Start é já tecnologia de ponta ao alcance de apenas alguns dotados. Práctica comum aos que, seja de avião ou de carro, cá chegam, é agir como donos do mundo. Quem é que querem enganar? A malta sabe que quando foram para França o intuito era fugir à guerra ou procurar uma vida melhor, já que cá não se safavam. Até aqui tudo bem. A questão é que foram para lá com a 4ª classe, e muitas vezes com pouca habilitação fosse para o que fosse. Sendo assim, e sendo também que, pelo menos em cada três famílias uma tem emigrantes, não deve haver quase ninguém que não saiba as profissões predominantes na vossa classe. Entre trolhas, pintores da construção civil, domésticas, empregadas de restaurantes, empregadas de limpeza de casas-de-banho, e outras do estilo, não me parece que tenham uma vida muito descansada. Tudo bem, podem-me dizer: “Mas Pikes, são profissões tão dignas como as outras.”. Ao que eu digo: “Então porque é que só quem não as tem é que diz isso?”. Esta resposta é do mais hipócrita possível. Então se os Avecs achassem essas profissões dignas, não se tinham ido embora, arranjavam-nas cá. É que eles matam-se a trabalhar nos países para onde vão, mas cá recusam-se a trabalhar nas obras. Bom, mas isso é outra questão, daqui a pouco estou a falar a sério.
Mais um dos sub-géneros de Avec, é o que vem de carro, mas não chega cá. É aquele que fica numa auto-estrada espanhola, espalmado contra um camião ou um autocarro (de emigrantes). Este tipo de Avec não me chateia muito, devo admitir. Mas o que vem no autocarro já é diferente. Se tem a sorte de cá chegar inteiro, vem a viagem toda a dar cabo do juízo dos que, infortunados, não são Avecs mas viajam naquele autocarro. Querem parar em todo o lado, passam a vida à rasca para mijar, não se calam, falam alto e os cabrões dos putos são autênticos discípulos do Demo. Depois há a sande. A puta da sande de carne assada. Gordurosa, com molho, a sujar todo o incauto que se atreva a estar a menos de cinco metros da besta que a degluta.
As sandes moem-me. A sério. Nem vou falar mais delas. E porque é que ninguém lhes explica que existem outras formas de transportar a roupa e os pertences sem ser em sacos de plástico?
Finalmente, o último sub-género de Avec. O filho. O filho do Avec é do piorio. Não lhes poder bater ainda me custa mais. Cabrões dos putos são malcriados, burros e têm a mania que são mais espertos que os outros.
Esta vertente de Avec é no entanto a minha esperança. Se Deus quiser, quando forem mais velhos, já não voltam.
É o comportamento em Portugal que homogeniza todos estes sub-géneros.
Fingem não conseguir falar português, mas falam um francês ridículo. Se em França não falam bem francês, e depois vêm para Portugal e falam mal português, o que é que eles falam? Nada. Finalmente, a pièce de resistance. As coisas em França são sempre melhores. Não há nada cá que seja melhor do que em França, segundo eles.
Se alguém cospe para o chão: “Ai, lá na France não se cospe para o chão, é proibido.”. Se está fila para a caixa do supermercado: “Ai, lá na France nunca há filas, o atendimento é muito melhor.”. Se um gajo tem uns ténis novos no mercado: “Ai, lá na France esses ténis já saíram há muito tempo.”. Eles chegam ao ponto de nem ouvir o que estamos a dizer. Vêm programados para responder sempre que lá na France é melhor. Eu acho que se dissesse que fui fazer um exame à prostata e que o médico tinha um dedo com vinte centímetros, eles diziam logo que lá na France os dedos dos médicos têm sempre no mínimo 40 centímetros. Porra, raios partam a France! E ainda por cima tiraram-nos a única hipótese que alguma vez tivemos de ser campeões da Europa em futebol!
O Avec é definitivamente um ser irritante. E por amor de Deus, meia branca de algodão não fica bem! Levar garrafões de vinho e arcas Camping Gaz cheias de cerveja e frango assado para a praia é bimbo! Ir a restaurantes caros e dizer que não se sabe para que é tanto talher não é de bom tom! Fazer barulho a comer a sopa é feio!
Resumindo, fiquem na France, a fazer o que quer que seja que fazem, e poupem-nos!
Muito mais teria para dizer, mas este site é português. Se fosse na France, dava para escrever muito mais…
«assepção»?
«sub-género(s)»? [4 x]
«... funcionam a maior parte...»?
«Práctica»?
«homogeniza»?
3, de 1 a 10.
Afixado por: Senhor Doutor em janeiro 1, 2004 10:26 PM